terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

HISTÓRIA BREVE DO CRISTIANISMO

Os excertos abaixo são tópicos da obra HISTÓRIA BREVE DO CRISTIANISMO de José Orlandis, e resumem o percurso histórico da fé cristã:



1. AS ORIGENS DO CRISTIANISMO. O cristianismo é a religião fundada por Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem. Os cristãos - discípulos de Cristo - incorporam-se pelo batismo à comunidade visível de salvação, que recebe o nome de Igreja.

2. A SINAGOGA E A IGREJA UNIVERSAL. Os cristãos perseguidos pelo Sinédrio em breve se desvincularam da Sinagoga. O Cristianismo, desde as suas origens, foi universal, aberto aos gentios, e estes foram declarados libertos das prescrições da Lei mosaica.

3. O IMPÉRIO PAGÃO E O CRISTIANISMO. O Cristianismo nasceu e desenvolveu-se dentro do quadro político-cultural do Império romano. Durante três séculos o Império pagão perseguiu os cristãos, porque sua religião representava outro universalismo e proibia os fieis de prestarem culto religioso ao soberano.

4. A VIDA DA CRISTANDADE PRIMITIVA. Os cristãos formavam comunidades locais - igrejas - sob a autoridade pastoral de um bispo. O bispo de Roma - sucessor do Apóstolo Pedro - exercia o primado sobre todas as igrejas. A Eucaristia era o centro da vida cristã. O repúdio do Gnosticismo foi a grande vitória doutrinal da Igreja primitiva.

5. A PRIMEIRA LITERATURA CRISTÃ. As letras cristãs tiveram a origem nos "Padres Apostólicos", cujos escritos refletem a vida da Cristandade mais antiga. A Apologética foi uma literatura de defesa da fé, ao passo que o século III presenciou já o nascimento de uma ciência teológica.

6. A IGREJA NO IMPÉRIO ROMANO CRISTÃO. No decurso do século VI, o Cristianismo começou a ser tolerado pelo Império, para alcançar depois um estatuto de liberdade e converter-se finalmente - no tempo de Teodósio - em religião oficial. O imperador romano-cristão convocou as grandes assembléias de bispos - os concílios - e a Igreja pode organizar as suas estruturas territoriais de governo pastoral.

7. A CRISTIANIZAÇÃO DA SOCIEDADE. Sob o ponto de vista social o século IV presenciou também uma profunda transformação religiosa: a sociedade cristã sucedeu às comunidades cristãs do período anterior. O Cristianismo deixou de ser, no mundo mediterrâneo, uma religião de minorias para se converter em religião de multidões. A evangelização ultrapassou o seu anterior quadro urbano e atingiu a população camponesa maioritária. As Igrejas rurais proliferaram e surgiu uma geografia eclesiástica.

8. A FORMULAÇÃO DOGMÁTICA DA FÉ CRISTÃ. Nos séculos que se seguiram à conversão do mundo antigo foi definida com precisão a doutrina acerca de verdades fundamentais da fé cristã. Formulou-se a doutrina dogmática sobre a Santíssima Trindade, o Mistério de Cristo e a questão da Graça.

9. OS PADRES DA IGREJA. Os séculos IV e V constituem a idade de ouro da Patrística. No Oriente e no Ocidente apareceu uma plêiade de personalidades excepcionais, que uniam a santidade de vida a uma destacada atividade no campo das ciências sagradas, e inclusivamente da cultura em geral.

10. O CRISTIANISMO E OS POVOS BÁRBAROS. As invasões germânicas abriram ao Cristianismo o acesso a novos povos, que se estabeleceram em terras do Império. Depois, os missionários levaram o Evangelho para além das antigas fronteiras romanas. Germanos, eslavos, magiares, etc. receberam a fé cristã e passaram a fazer parte da Igreja, embora vários desses povos o tenham feito depois de terem professado durante algum tempo a heresia ariana.

11. A VIDA ASCÉTICA E O MONAQUISMO. Desde as origens da Igreja, houve cristãos que abraçaram uma vida de plena imitação de Cristo. Mais tarde o ascetismo cristão revestiu várias formas características de fuga do mundo e da vida comum; assim nasceu o monaquismo, que floresceu desde o século IV, tanto no Oriente cristão como no mundo latino ocidental.

12. O CRISTIANISMO NA EUROPA FEUDAL. O Cristianismo sofreu a influência feudal nos tempos obscuros da gênese da Idade Média. As igrejas e os seus titulares viram-se envolvidas na apertada malha de relações vassálico-feudais que articulam essa sociedade. A ingerência dos senhores seculares da vida eclesiástica produziram uma penosa decadência moral, que em Roma, deu lugar ao chamado "Século de Ferro" do Pontificado.

13. A LENTA GESTAÇÃO DO CISMA DO OCIDENTE. A divisão do Império romano pôs a descoberto o dualismo sempre latente entre Ocidente e Oriente, o mundo latino e o mundo grego, Roma e Constantinopla. Este dualismo refletiu-se também no terreno religioso e eclesiástico, onde as tensões provocaram um afastamento crescente e acabaram por provocar o enfrentamento e o Cisma.

14. PONTIFICADO E IMPÉRIO NA IDADE MÉDIA. Pontificado e Império foram as duas colunas sobre as quais assentou a Cristandade medieval. O papa representava o poder espiritual e o imperador, o poder temporal. O ideal - poucas vezes plenamente conseguido - foi o entendimento e a colaboração harmônica entre os dois poderes.

15. O APOGEU DA CRISTANDADE. A reforma gregoriana preparou os tempos de esplendor da Cristandade: os séculos XII e XIII, cujo centro ocupa o Pontificado de Inocêncio III. A vitalidade da Europa cristã foi extraordinária: reuniram-se concílios ecumênicos, nasceram universidades, fundaram-se grandes ordens religiosas e as Cruzadas constituíram empresa comum de reis e príncipes cristãos.

16. ESTRUTURAS DE UMA SOCIEDADE CRISTÃ. A impregnação cristã conseguiu penetrar todos os estratos da sociedade medieval. O guerreiro transforma-se em cavaleiro, e por cavaleiros eram formadas as ordens militares. Os artesãos agrupam-se em corporações de ofícios e fraternidades, que depois haviam de ser grêmios. O povo cristão levanta catedrais e peregrina para Jerusalém, Roma ou Compostela.

17. A HERESIA MEDIEVAL. No coração da sociedade cristã ocidental não faltou a presença da heresia. Movimentos e correntes religiosas de longínqua procedência oriental lançaram raízes no sul da França: a Inquisição foi criada para as combater e defender a unidade da fé. Outras doutrinas heterodoxas difundidas na Baixa Idade Média podem considerar-se precursoras do Protestantismo.

18. A CRISE DA CRISTANDADE. Os duros confrontos do século XIII entre papas e imperadores alemães constituíram um dos fatores mais importantes da falência do sistema de Cristandade. Um novo "espírito secular" e a tendência para o nacionalismo eclesiástico animou os governantes das monarquias ocidentais. No desterro dourado de Avinhão, o pontificado do século XIV viveu sob a sombra da França.

19. O CISMA DO OCIDENTE E O CONCILIARISMO. A crise da Cristandade desembocou no Cisma do Ocidente. Os reinos cristãos dividiram a sua "obediência" entre três papas, cada um dos quais pretendia ser cabeça legítima da Igreja. Neste clima de confusão, as doutrinas conciliaristas procuravam alterar a própria estrutura eclesiástica, fazendo do concílio ecumênico uma instância suprema, por cima do Papa.

20. ENTRE A IDADE MÉDIA E A MODERNA. Um cúmulo de fatores de sinal contraditório parecem coincidir na altura da transição entre Idade Média e Idade Moderna. Uma visão antropocêntrica do mundo e um entusiasmo pela Antiguidade pagã informam o espírito das "elites", enquanto os povos continuam fieis às suas tradições religiosas e a DEVOCTIO MODERNA enriquece a piedade cristã. A reforma eclesiástica não se realiza e os papas renascentistas são os mecenas das belas-artes. Constantinopla - a segunda Roma - cai em poder dos turcos; mas o descobrimento da América abre ao Evangelho um novo continente.

21. A REFORMA NA ALEMANHA: LUTERO E O LUTERANISMO. Martinho Lutero foi a alma da grande revolução religiosa que cindiu a unidade cristã ocidental. A complexa personalidade de Lutero, agitada pelas suas crises interiores, conseguiu galvanizar o velho ressentimento germânico contra a Reforma e ir ao encontro das apetências dos príncipes alemães.
** Sobre este tema são fundamentais os quatro volumes publicados em português da obra MARTINA, Giacomo. História da igreja de Lutero a nossos dias. SP: Loyola, 1995. **
22. A REFORMA PROTESTANTE NA EUROPA. A revolta protestante separou da Igreja Católica metade dos povos europeus e assumiu diversas formas. O Protestantismo - de inspiração luterana ou calvinista - impôs-se na maior parte dos estados de centro e do norte da Europa. O Anglicanismo foi, nas suas origens, um cisma, para se "protestantizar" depois de Henrique VIII.

23. A REFORMA CATÓLICA. Os anseios de renovação cristã produziram um admirável florescimento no seio da Igreja, que em alguns países, como na Espanha, se iniciou antes do Luteranismo. Reformaram-se antigas ordens religiosas, criaram-se ordens novas, apareceram grandes santos e grandes papas. O Concílio de Trento não conseguiu o objetivo almejado por Carlos V de restaurar a unidade cristã; mas realizou uma obra imensa, tanto no campo da doutrina católica como no da disciplina eclesiástica.

24. DAS GUERRAS DE RELIGIÃO À CISÃO CRISTÃ DEFINITIVA. O mapa religioso da Europa não se consolidou senão em meados do século XVII. As lutas entre católicos protestantes foram "guerras de religião" na França. Na literatura e na arte, o Barroco é um reflexo fiel do espírito do Catolicismo póstridentino. Mas a prova decisiva foi a Guerra do Trinta Anos, que colocou frente a frente as monarquias católicas dos Habsburgos e as potências protestantes, juntamente com a França, sua aliada. Os tratados de Westfália consagraram a cisão religiosa da Europa. Na Inglaterra a revolução orangista pôs termo aos pendores filocatólicos dos últimos Stuarts.

25. O GRANDE SÉCULO FRANCÊS. O século XVII foi um grande século francês também na ordem religiosa. A França, aliada dos protestantes no exterior, passou na sua política interna da tolerância concedida pelo Édito de Nantes à estrita unidade católica. O Cristianismo francês, apesar das sombras jansenistas, deu provas de uma admirável vitalidade. A proliferação das disputas teológicas era ao mesmo tempo um sinal de inquietação religiosa e de instabilidade espiritual. 

26. O REGALISMO MONÁRQUICO CONTRA O PONTIFICADO. Os governos das monarquias católicas do século XVIII foram propensos ao Regalismo: hostis e receosos ante o Pontificado Romano, pretenderam controlar minuciosamente a vida eclesiástica e fazer da Igreja quase um serviço público. Galicanismo, Josefismo, Febronianismo, são expressões de um mesmo fenômeno de intromissão regalista na atividade da Igreja, característico do Despotismo Ilustrado.

27. A ILUSTRAÇÃO ANTI-CRISTÃ. Desde a segunda metade do século XVII faz-se sentirem muitos espíritos uma profunda mudança que foi definida como "crise da consciência europeia". O Deísmo inglês e o racionalismo francês prepararam o caminho para a irreligião aberta dos "filósofos" ilustrados. A "Enciclopédia" difundiu as novas ideias, que encontraram largo acolhimento entre as classes altas da sociedade.

28. DA REVOLUÇÃO À RESTAURAÇÃO. A era revolucionária, aberta em 1789, abalou os fundamentos políticos religiosos da Europa. A Revolução francesa, nos seus momentos mais agudos, procurou eliminar por completo toda a marca cristã da vida social. Dois papas foram prisioneiros dos governos revolucionários. Napoleão, restaurador da Igreja em França, assumiu também a herança do Galicanismo. A restauração pretendeu um regresso ao Antigo Regime. Muitos católicos, impressionados pela experiência sofrida, propugnavam uma nova "aliança entre o Trono e o Altar".

29. CATOLICISMO E LIBERALISMO. A Restauração frustrou-se e o século XIX foi o século do Liberalismo, ideologia da Revolução Burguesa. Seria possível chegar a um entendimento entre Catolicismo e Liberalismo? Convinha à Igreja um regime de simples liberdade, sem a proteção do Estado nem o reconhecimento dos seus privilégios tradicionais? A verdade e o erro deviam ter os mesmo direitos na vida pública? Estas e outras interrogações receberam respostas diversas da parte dos católicos de uma época marcada, para mais, pelo apogeu dos nacionalismos, que ameaçavam diretamente os Estados da Igreja.

30. A ÉPOCA DE PIO IX. O longo pontificado de Pio IX abrange uma época completa. Pio IX foi um papa singularmente amado e venerado pelos católicos: os seus próprios infortúnios reforçaram esta cordial adesão. O concílio Vaticano I e a perda do Poder temporal marcaram um período da história cristã de indubitável renovação espiritual no que respeita à vida interna da Igreja.

31. OS CRISTÃOS PERANTE AS NOVAS REALIDADES SOCIAIS. O século XIX presenciou também uma notável transformação das realidades sociais. O auge do capitalismo, a revolução industrial e a criação dos proletariados urbanos provocaram o aparecimento de um "problema social", desconhecido até então. Ideologias de sinal anti-cristão, como o Marxismo e o Anarquismo, propugnavam novos modelos de sociedade e influiram poderosamente nos movimentos operários. O papa Leão XIII propôs um programa cristão para o novo mundo do trabalho.

32. SÃO PIO X E A CRISE MODERNISTA. Sob o influxo de causas muito diversas - como as filosofias irreligiosas, o cientismo decimonônico e o Protestantismo liberal - ganhou corpo na Igreja o fenômeno modernista. O Modernismo, que na opinião de alguns devia reconciliar o Catolicismo e a mentalidade moderna e superar a pretensa oposição entre a fé e a ciência, na prática acabava por esvaziar de conteúdo sobrenatural a fé católica. São Pio X cortou resolutamente o passo ao Modernismo. Foi um papa valente que olhou por cima de tudo aos "interesses de Deus" e promoveu com ardor a piedade cristã.

33. A ERA DOS TOTALITARISMOS. O Tratado de Versalhes não trouxe ao mundo a paz, mas apenas duas décadas de "entre-guerras". Os totalitarismos de sinal contrário coincidiam em submeter a pessoa à vontade omnímoda do Estado. Nos países cristãos - como a Rússia, o México, a Espanha - a perseguição religiosa revestiu extraordinária violência. Pio XI promoveu vigorosamente a Ação Católica com o fim de associar os leigos ao apostolado hierárquico da Igreja. A grande expansão missionária e a solução da "questão romana" foram dois acontecimentos felizes de primordial importância.

34. AS CONSEQUÊNCIAS POLÍTICO-RELIGIOSAS DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL. A Segunda Guerra Mundial produziu imensos sofrimentos, prolongados no pós-guerra. Os campos de concentração e as emigrações forçadas de milhões de famílias não tem precedentes na história moderna. Derrotados os totalitarismos fascistas, grande parte da Europa ficou em poder de um outro totalitarismo, portador de uma ideologia ateia, que impôs graves restrições à liberdade dos cristãos. A implantação de regimes comunistas na China e noutros países impediu neles a atividade missionária, ao mesmo tempo que a Igreja obtinha novos êxitos nos países de Terceiro Mundo, livres do domínio marxista.

35. O CRISTIANISMO NOS FINAIS DO SÉCULO XX. O concílio Vaticano II formulou nos seus documentos um importante programa de renovação cristã, que nada tem a ver com os abusos cometidos em nome de um pretenso "espírito conciliar". Hoje o mundo sofre de uma profunda crise de valores espirituais, para a qual contribuíram o afã de bem-estar da sociedade de consumo, a perda do sentido sobrenatural de vida e um reducionismo religioso que contempla o Cristianismo e a Igreja sob uma ótica primordialmente terrena. A Igreja tem de ser agora a defensora de valores tão essenciais como o direito à vida, a dignidade do homem e a unidade da família. Na nova humanidade de fins do século XX, o Cristianismo aparece - do mesmo modo que nos seus começos - como a religião dos discípulos de Cristo que, com a ajuda da Graça, procuram corresponder a sua vocação de cristãos.

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