domingo, 8 de março de 2009

SACRAMENTOLOGIA FUNDAMENTAL

PALESTRA EM 15/09/2008
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OS SACRAMENTOS:
LUGAR TEOLÓGICO PARA SANTIFICAÇÃO DO POVO FIEL
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Introdução
Mútiplas podem ser as abordagens lícitas da temática sacramental.
Dentre elas a mais comum em nossos dias, especialmente por que ressalta sua dimensão celebrativa, é a litúrgica ou cultual, ressaltando seus símbolos e valorizando a criatividade de comunicar a fé por meio deles. O próprio Catecismo da Igreja Latina enfatiza a relação intrínseca (doutrinal) e extrínseca (celebrativa), entre os sacramentos e a liturgia, quando afirma: “Os ritos visíveis, com os quais são celebrados os sacramentos, significam e realizam as graças próprias de cada sacramento” [Cat 1131].
Por detrás desta abordagem oculta-se o chamado paradigma mistagógico; ou pelo menos, uma tentativa de retomada deste modelo eclesial, que norteou os inícios do cristianismo, e ainda está muito vivo nas celebrações das comunidades cristãs-católicas orientais.
Contudo, esbarramos em um obstáculo atual evidente: a ignorância da fé doutrinária nas estâncias fundamentais da Igreja, isto é, em nossas comunidades. É fato notório a imensa dificuldade que nossos catequistas enfrentam para desenvolver seu apostolado em situações de descaso dos ministros ordenados e falta de empenho na busca de conhecimento eclesial e doutrinal.
Faz-se, portanto, oportuno e necessário tornar claro e preciso o conceito daquilo que na vida da Igreja denomina-se Sacramento, bem como sua variedade e qualidades. Nesta apresentação nos restringiremos ao conceito estrito e ampliado. São, portanto, os sacramentos, como afirma o Catecismo: “sinais eficazes da graça, instituídos por Cristo e confiados à Igreja, pelos quais nos é dispensada a vida divina” [Cat 1131].
(lugar teológico – expressão para designar o espaço temporal da graça, onde se dá o encontro com Deus; onde Deus se comunica e o homem pode acolhê-lo.)
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1. Os Sacramentos como lugar teológico-litúrgico.
Toda ação da Igreja é litúrgica, pois é através da liturgia que Deus, através da Igreja, serve o seu povo: toda ação litúrgica é comunicação de dons de Deus para com seu povo, e disto a Igreja é mediadora – ponte.
Na verdade, a Igreja não é só ponte, mas corpo: é o Corpo de Cristo (1Cor 12,12ss), presidida por Ele, sua cabeça, no poder do Espírito derramado que faz a ligadura entre seus membros, os crentes (teologia paulina: aqueles que fé aderiram a Jesus Cristo e a sua obra salvadora).
Assim, a Igreja na complexidade da sua natureza é, ela mesma, Sacramento de Cristo [LG 1], pois simboliza seu mistério pascal e o atualiza em todos os povos e nações por meio de sinais sensíveis e visíveis.
Na Igreja, tudo é Corpo de Cristo, como cada uma de suas partes, os membros. E a eficácia da graça só se manifesta na unidade promovida pelo Espírito, pois é através do dom da unidade que todos os membros (judeus e pagãos) recebem a auto-comunicação divina (DV 1).
A ação litúrgica comemora e celebra esta auto-comunicação de Deus para com seu povo por meio de seu Filho, Jesus Cristo, no qual fomos adotados e somos divinizados (Gl 4,1ss; Irineu de Lião). Assim, são atuais as palavras do Catecismo quando afirma que a liturgia, obra da Santíssima Trindade, é o instrumento por meio do qual a benção divina é comunicada ao ser humano (Cat 1077-1109).
A Igreja enquanto realidade espiritual é também humana e constituída de ministros ordenados à liturgia, isto é, ao serviço do povo fiel, como dispensadores da graça de Cristo. (Deste modo, a Igreja é amparada e sustentada pelo ministério episcopal, bem como de seus auxiliares: padres e diáconos, nos serviços específicos do Ensino, da Santificação e do Governo [LG 24-27].) Por meio do Serviço da Santificação do povo fiel, administra-se “a graça do sacerdócio supremo” de Cristo, que tem na Eucaristia seu epicentro; é por meio desta graça, múltipla e diferentemente sinalizada, que “a Igreja, continuamente, vive e cresce” [LG 25].
Assim, na liturgia sacramental são comunicadas aos fiéis pela Igreja e seus ministros as graças atuais que a vivificam e robustecem para realizar sua vocação: a Santidade (LG 39), que tem Jesus Cristo como mestre e modelo (LG 40). Ou ainda, nas palavras de São Paulo, somos alimentados com a graça para crescermos à estatura de Cristo, no amadurecimento da caridade (Ef 3,14-19).
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2. Os Sacramentos como lugar teológico-litúrgico de santificação.
Já nos recordava o saudoso Papa João Paulo II que a Eucaristia faz a Igreja. Dela promana tudo que a Igreja é, e vive. Ela é a síntese perfeita da unidade eclesial.
Assim, a Missa - celebração da ação de graças memorial coloca todos os povos em sintonia com mistério espiritual que nos faz Corpo de Cristo. Pela Eucaristia atualiza-se e nos é comunicado – na Igreja e nunca fora dela – o dom da salvação realizada por Cristo, uma vez por todas (Rm 6,10), por sua paixão, morte e ressurreição.
Ela – a Eucaristia – encerra a nossa fé na firme esperança de que o Dom do Amor do Pai, que não deixou seu Filho entregue ao poder da morte, também nos haverá de restaurar a vida no último dia, pois nos foi entregue no sacrifício da cruz de Cristo (Jo 19,30).
Desta prova de Amor, todos nós – a Igreja – somos devedores e testemunhas! (At 2,32).
A Eucaristia nos faz testemunhas do amor! – porque vimos, ouvimos e anunciamos (1Jo 1,3).
Embora não tenhamos convivido com Jesus há dois mil anos nós o vemos e ouvimos pela recordação da sua vida proporcionada pelo testemunho dos seus apóstolos e discípulos, consignadas nas Escrituras Sagradas, que nos comunicam sua experiência com Cristo. E o próprio Espírito confirma em nossos corações a veracidade daquilo que testemunham (Rm 8,16: a nossa adoção filial e herança divina), e que podemos ver e ouvir pela fé, na celebração litúrgica.
Assim, a Eucaristia nos faz testemunhas daquilo que vimos e ouvimos na celebração da fé!
Se a liturgia coloca-nos em contato com o mistério fundamental da fé e o Sacramento dos Sacramentos que se dirá com as outras graças que derivam desta imensa prova de Amor de Deus pelo seu Povo em Jesus Cristo. A Liturgia, na qual se celebra e se administra os dons sacramentais é lugar teológico eucarístico, pois nos remete ao epicentro da fé: a prova de amor de Deus pela humanidade em Cristo, que entregou sua vida, amando-nos até o fim (Jo 13,1). (Entrevemos aqui a base sacrificial da liturgia, bem como da Eucaristia).
Neste sentido, compreendemos como atuais as palavras do Catecismo quando afirma que: “toda a vida litúrgica da Igreja gravita em torno do sacrifício eucarístico e dos sacramentos” (Cat 1113). E ainda quando alegoricamente vê no lado aberto de Cristo na Cruz a fonte da qual promana toda vida sacramental da Igreja: o sangue do sacrifício necessário, e a água da regeneração, comunicam o Espírito vivificador rendido na cruz em benefício da humanidade, que agora pode banhar-se ininterruptamente na fonte da vida divina.
Mais ainda, pela vida sacramental todo fiel torna-se fonte que jorra para a vida eterna (Jo 4,13-14), pois pode unir – a seu modo – seu sacrifício espiritual de busca de “santidade perfeita” (ITess 5,23) ao único sacrifício de Cristo, que torna sua vida lugar onde Ele continua a ser imolado em benefício de uma multidão de irmãos.
Assim, a vida sacramental, bem como a comunhão eucarística, atualiza e realiza em nós a vocação natural da Igreja, isto é, torna-nos Sacramento de Cristo, em vista da santidade.A vida sacramental nos torna co-participantes de Cristo, em seu Corpo, que é a Igreja. E disto todos somos testemunhas desde a Liturgia da Igreja até os confins do mundo, parafraseando São Lucas (Lc 1,6-11). Como nos recorda o Catecismo: “O fruto da vida sacramental é, ao mesmo tempo, pessoal e eclesial. Por um lado, este fruto é, para todo o fiel, viver para Deus em Cristo Jesus; por outro, é para a Igreja crescimento na caridade e na sua missão de testemunho” [Cat 1134].

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