domingo, 8 de março de 2009

"O QUE VIMOS E OUVIMOS NÓS ANUNCIAMOS!" - parte 1/2

AULA INAUGURAL DO INSTITUTO DE TEOLOGIA JOÃO PAULO II
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Texto
(1Jo 1,1-4 )
1. O que era desde o princípio,
o que ouvimos,
o que vimos com nossos olhos,
o que contemplamos,
e o que nossas mãos apalparam do Verbo da vida
2. – porque a vida manifestou-se:
nós a vimos e dela vos damos testemunho
e vos anunciamos a Vida Eterna,
que estava voltada para o Pai e que nos apareceu –
3. o que vimos e ouvimos nós vo-lo anunciamos
para que estejais também em comunhão conosco.
E a nossa comunhão
é com o Pai
e com o seu Filho Jesus Cristo.
4. E isto vos escrevemos
para que a nossa alegria seja completa.
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Primeiras Palavras
A primeira Carta de São João inicia seu ensinamento comunicando o encontro do ser humano com Deus, que assim desejou se revelar:
“o que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos, e o que nossas mãos apalparam do Verbo da vida [...] o que vimos e ouvimos nós vo-lo anunciamos para que estejais também em comunhão conosco” (cf. 1Jo 1,1.3a).
Precisamos atentar para este realidade infalível: nossa fé está fundada no desejo de Deus de se comunicar conosco, de mostrar-nos a sua face, de falar conosco, como a “amigos”, revelando-nos sua intimidade (cf. DV 1; Jo 15,15).
São João continua, e afirma:
"e a nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo” (cf. 1Jo 1,3b).
O desejo divino de manifestar-se à nós Ele o concretizou enviando ao mundo o seu próprio Filho, o “Verbo da vida”, que estava voltado para o Pai e que nos apareceu (cf. 1Jo 1,2; Jo 3,16.35-36).
A fé católica não tem como fundamento a opinião meramente humana de um guia espiritual, mas conclama o testemunho do Filho unigênito de Deus, que se sujeitou à nossa humanidade, a fim de glorificá-la com a glória que possuía desde toda a eternidade, isto é, a sua Filiação Divina. Fomos adotados como filhos em Jesus, o Filho (cf. GS, 4; Fl 2,1-11; Gl 4,1-7).
Nas palavras de São João:
“e nós vimos a sua glória, glória que ele tem junto ao Pai, como Filho único, cheio de graça e de verdade” (cf. Jo1,14b).
Os primeiros cristãos não apenas viram e ouviram, mas, como recordamos acima, “apalparam” a Glória do Pai, tocaram seu Filho, Jesus Cristo; e assim experimentaram a graça da incorporação à “videira verdadeira”, e puderam desfrutar da Vida Divina, dom do Espírito Santo (cf. Jo 15,1ss). Esta é a herança que deles, as primeiras testemunhas de Jesus, nós recebemos! É o nosso patrimônio!
E como é que o tocaram? Como é que tocaram o Filho de Deus? Apenas com seus sentidos humanos? Ou será que o tocavam de um modo, diríamos, sobrenatural?
Indubitavelmente, o tocavam pela fé. Muitos o viram com seus olhos, mas nem todos o seguiram. Muitos o ouviram, e na mesma proporção consideraram suas palavras duras demais e se afastaram. Outros chegaram, de fato, a por suas mãos sobre seu corpo, como os soldados que o crucificaram, nem por isso se converteram. Se não houvesse um dom sobrenatural acompanhando os sentidos propriamente humanos, se não houvesse a fé como dádiva divina, não teriam tocado o Filho de Deus. Poderiam sim, amparados pela capacidade humana de acreditar, dar atenção às palavras daquele personagem inusitado que se apresentava diante de seus olhos, mas nunca seriam capazes de mergulhar no mistério do Verbo da vida.
Felizmente, suas palavras possuiam o poder de realizar o obra do Pai:
“as palavras que vos digo, não as digo por mim mesmo, mas o Pai, que permenece em mim, realiza suas obras” (cf. Jo 14,10b).
As palavras de Jesus: sua palavra, seus ensinamentos; não como o dos outros mestres, mas como quem tem autoridade, não humana apenas, mas divina, proclamam e realizam a vontade do Pai, isto é, que os seres humanos O conheçam: a Ele e ao seu Filho Jesus Cristo. Revelam, portanto, a sua intimidade. Elas, suas palavras, revelam toda a verdade, que o Espírito se encarregará de recordar em tempo propício, para alimentar a vida dos cristãos (cf. Jo 16,13).
É ele, o Espírito Santo, que instaura na vida do ser humano a dinâmica da salvação; Ele é quem comunica “toda a verdade”, que é Cristo, à humanidade; Ele é a fonte da comunhão com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo (cf. Jo 16,13). É o Espírito Santo que alimenta com a vida divina, a Igreja. Instaurando e renovando a comunhão com o Pai e com Jesus.
De modo semelhante a Jesus, seus discípulos, sua Igreja, enviados pelo mundo como suas testemunhas proclamam sua palavra, amparados pela mesma graça de Cristo, o Espírito Santo, a fim de instaurar no coração da humanidade a realidade da fé.
Esta é a alegria da Igreja, como disse São João: “que estejais também em comunhão conosco” (cf. 1Jo 1,4), pela proclamação do dom que recebemos, isto é, que experimentamos; pelo que vimos, ouvimos e apalpamos, e que nos colocou em comunhão com o Pai e seu Filho Jesus Cristo.
E é por isso que estamos fazendo teologia, para mergulharmos na comunhão trinitária, mistério revelado fundamental da fé católica.
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1. O que é que nós anunciamos? Ou melhor: quem?
Agora, precisamos atentar para alguns aspectos da teologia católica:
1.1 A teologia não é exclusividade dos acadêmicos: o conhecimento de Deus comunica a verdade que nutre a Igreja. Assim, todo cristão é teólogo, por excelência. Todo cristão parte de sua necessidade de Deus, para encontrar-se com Deus no mistério da sua Revelação. Ele é a origem, o caminho e o fim da teologia e da vida cristã (conhecimento afetivo e efetivo da teologia).
1.2 A teologia católica é revelacional, isto é, parte da revelação do Pai, através de Jesus Cristo e da recordação do seu ensinamento pelo dom do Espírito Santo, dom concedido à sua Igreja, isto é, àqueles que a Jesus aderiram na fé. Assim, a teologia católica não é fruto apenas de uma reflexão humana, ideologicamente coerente, mas também é dom de Deus à sua Igreja. Assim, é justo chamar este estudo de Sagrada Teologia.
1.3 Assim, para falar de Deus o teólogo é convidado a olhar para o passado do caminho que Deus quis fazer com o seu Povo, na finalidade de encontrar as respostas para os dilemas do presente. Por isso, para fazer teologia é indispensável um contato com aquele testemunho primordial dos primeiros cristãos, consignado nas Escrituras Sagradas, no Novo Testamento; bem como o contato com a experiência religiosa do povo por meio do qual quis Deus Pai enviar seu Filho ao mundo, isto é, o povo judeu e seus antecedentes, os israelitas, no Antigo Testamento. De modo que, na base de uma teologia equilibrada está a Sagrada Escritura como “Regra da Fé”.
1.4 As Escrituras antes de serem consignadas textualmente foram resultado da vida do povo de Deus, que procurou transmitir oralmente sua experiência com Deus e com seu Filho Jesus Cristo. Deste modo, a Igreja depende substancialmente da Sagrada Tradição Apostólica que legou para a história da humanidade o anúncio de Jesus Cristo.
1.5 Depende ainda a teologia católica das orientações daqueles que quis Nosso Senhor Jesus Cristo fazer presidir seu Povo Santo, isto é, os sucessores dos Apóstolos, nossos Bispos, historicamente constituídos organicamente e institucionalmente, em comunhão com o sucessor de Pedro, o Sumo Pontíficie. Esta Sagrada Autoridade de Magistério, i.é, de Ensino, visa regular nosso discurso e nossos ensinamentos para evitar erros e discenssões.
1.6 Assim: a Sagrada Escritura, a Tradição Apostólica e o Magistério Eclesial, precisam apoiar e ancorar a pesquisa teológica (cf. DV 7-10). Não é lícita, nem digna de ser considerada católica, uma pesquisa teológica, que prescinda de um destes três elementos formais.
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continua...

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