Reflexão da Liturgia - Domingo

Tempo de Criação

GOTAS DA PALAVRA


Gotas da Palavra

(publicado em: https://sites.google.com/site/gotasdapalavra).


26 de junho de 2022

13º Domingo Comum

 

Elias, ao passar perto de Eliseu, lançou sobre ele o seu manto. 1Rs 19,19

Ó Senhor, sois minha herança para sempre! Sl 15(16),5

...fazei-vos escravos uns dos outros, pela caridade. Gl 5,13

...chegando o tempo de Jesus ser levado para o céu. Então ele tomou a firme decisão de partir para Jerusalém. Lc 9,51

 

Vocacionados à escravidão de amor dos irmãos!

 

A passagem do Evangelho deste Domingo, 13º do Tempo Comum, mostra-se bastante enigmática. O tema sugerido pela Igreja ressalta o seguimento de Jesus. Um padre de nossos tempos, Cardeal Raniero Cantalamessa, enfatiza o horizonte vocacional, e nele o chamado de Jesus aos seus discípulos, e nisso, a gravidade de ser chamado por Jesus. Este caminho de reflexão parece ser bem interessante e, parece ainda, integrar bem todas as leituras desta Missa.

 

São Lucas começa dizendo que o tempo de Jesus ser levado ao Céu estava próximo; poderíamos dizer: arrebatado aos Céus, segundo versões do Evangelho. A ideia de arrebatamento evoca a memória israelita de Elias, que no final de sua missão experimentou este glorioso epílogo, foi levado ao Céu. A liturgia deste Domingo traz na primeira leitura a passagem na qual Deus deixa claro ao profeta Elias que sua missão está para findar, mandando-o ungir Eliseu para ocupar seu lugar profético. Elias lança seu manto sobre Eliseu, faz dele seu discípulo e aprendiz, e Eliseu o segue. Contudo, no Evangelho, quem chama discípulos enquanto se dirige à Jerusalém é Jesus. E não podemos ignorar a gravidade deste chamado, pois o autor da vocação é o próprio Filho de Deus feito Homem, Jesus Cristo. Também este chamado parece mais grave, pois a missão nele contida não diz respeito localmente a um povo previamente determinado, mas carrega uma universalidade que abrange a grandeza da missão salvífica de Cristo, seu reinado e seu Reino.

 

Tendo diante dos olhos a realidade já próxima de seu arrebatamento, Jesus se dirige a Jerusalém onde travará a derradeira batalha pela recuperação da verdadeira liberdade humana. No meio deste caminho, coisas estranhas acontecem.

 

No meio dos samaritanos Jesus e seus mensageiros são rejeitados; havia desafios históricos e culturais invencíveis naquele momento que impediam o acolhimento e a hospedagem deles; virá o dia e momento em que tal acolhimento tornar-se-á possível junto do poço de Jacó. Depois, continuando o caminho até Jerusalém alguém se oferece para seguir Jesus, mas o seu seguimento não corresponde a um mero voluntarismo por simpatia ou afinidade; antes, seu sacrifício na Cruz, seu despojamento, apontam para a finalidade do caminho, que jamais se pode reduzir a um lugar físico neste mundo, mas a um lugar espiritual para além desta realidade, isto é, um pássaro sem ninhos e uma raposa sem toca. De fato, esta é também a experiência da encarnação do Filho de Deus no mundo e na história - Ele escolheu uma nova casa para abitar para além daquela outra, eterna, em que habitava desde a eternidade.

 

Finalmente, Jesus resolve chamar, e como resposta ouve a manifestação de um apego humano: deixa primeiro enterrar meu pai! São Cirilo, recolhido por Santo Tomás de Aquino, entende e ensina que aqui estaria presente não apenas o dever religioso de honrar os mortos e o mandamento de honrar os pais, mas o adiamento do seguimento, só possível após a morte deles. Por último, mais um voluntarioso, que lembra em sua resposta as palavras de Eliseu a Elias. Contudo, Eliseu foi chamado; este, porém, apresentou-se.

 

A pergunta que nos fica desta reflexão poderia ser a seguinte: qual dentre aqueles que Jesus encontrou pelo caminho mais se coaduna com a gravidade do Seu chamado e da sua missão salvífica? Talvez a resposta venha da Segunda Leitura e do ensinamento de São Paulo aos Gálatas, isto é, um verdadeiro discípulo, identificado com Cristo, faz-se escravo dos irmãos pela caridade.

 

E disto, segue-se que a vocação cristã e o chamado de Cristo, primeiro partem de uma escolha divina e não de mero voluntarismo que poderia carregar a ambiguidade de unir intenções carnais e mundanas, às espirituais e salvíficas, sem a devida distinção. Depois, o verdadeiro chamado passa por seguir Jesus na Paixão e na Cruz, na doação e amor por aqueles que Ele amou até o fim. Sem essas duas notas fundamentais a vocação e o chamado podem ser legítimos, originais e singulares, mas não cristãos.

 

Santo Domingo!

 

Padre Rodolfo Gasparini Morbiolo

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