sábado, 21 de julho de 2012

CIRINEU... por Taís Oliveira

Cirineu

Presa em algum momento que ainda tento descobrir.
Um vento passou por aqui, misturando milhares de ideias.
Tudo o que levei dias para organizar, separar e limpar. Tudo espalhado pelo chão.
Ao cair do dia, ao passar das horas e ao apagar das luzes, tudo se confundiu.
Mas confesso, o dia mal havia começado e já me convidava para dar uma volta pelas minhas vontades.
E ele insistiu, mesmo eu dizendo que não queria. Pela insistência e circunstâncias, não pude resistir.
Não posso negar, mexer com as lembranças, organizar a vida, jogar fora coisas velhas, é uma coisa que nos tira um pouco o sossego.
E como sempre, Deus trabalha nos detalhes, no pouco e no simples.
Não, o dia não está nublado. Pelo contrario, deixei minha janela aberta para que entrasse em mim o sol, que lá fora brilha. Senti falta dele.
Após dias e mais dias, em que o céu abraçou a minha dor e compartilhou comigo as lagrimas que insistiam em cair, hoje vejo o sol brilhar, para me restaurar as forças, como uma subida à superfície, tomando mais um pouco de folego.
Você conhece meus limites, não iria me deixar perder o ar.
Não tenho vontade de chorar, apenas me aquietar. Digerindo atitudes e erros. Interiorizando meu ser. Olhando pra dentro, assim me encontrando com o Seu olhar.
Tão cuidadoso. Sei que não estou sozinha, irá me ajudar a organizar tudo, outra vez.
Sei que está me moldando. Aos poucos, vai retirando o que não é útil, o que é velho, o que é perigoso. Aos poucos vai trocando tudo de lugar. Tirando a poeira de velhos sentimentos e lembranças.
Eu que sempre fiz isso com minhas próprias mãos, vi que era impossível transformar algo em mim.
Hoje, vejo em você a esperança, do novo vir e me dar a direção.
Após anos com a porta trancada, as janelas fechadas, hoje vejo feixes de luz iluminar. Te deixei entrar e tudo começa a criar vida. Justo ali, onde nada tocava, nada se movia, nada criava. Era um tumulo de lembranças, onde ás vezes eu saía e voltava com uma caixa nova e tudo se misturava na confusão que ali havia.
Perdi tempo demais tentando lembrar onde havia deixado a chave, busquei em milhares de lugares, em alguns momentos até desisti. Resolvi sentar e permanecer ali, naquele velho porão. E quando eu já nem lembrava mais do que deveria fazer, à encontrei, num canto, lugar em que eu nem lembrava mais que existia, junto a milhares de sonhos antigos.
O que eu não imaginava, era a dor que me causaria ter que rever tantas coisas.
Parei novamente, mas agora nos velhos sonhos. E aos poucos fui me esquecendo de quem era. Esquecendo de quem havia me tornado. Me prendi no passado e esqueci do presente. De quem eu sou, no que acredito, onde cheguei.
Quando tomei coragem e me aproximei da porta, olhei pra trás diversas vezes, a vontade de ficar era forte de mais. Ao virar a chave, uma mistura de alivio e ansiedade me tomaram e em meio a lagrimas, abri.
Pra minha surpresa, o primeiro convite foi: "Saía! Vem para fora, veja o que há aqui, coisas que talvez, você nunca tenha visto."
Após dar uma volta em tantos outros lugares, dos quais nem lembrava que existia, outros eu realmente não fazia idéia de que estavam ali. Voltei ao local de partida. E vendo-o de fora, pude perceber a bagunça que estava. A sujeira. Não havia nem calor ali, muito menos luz. Coisas e mais coisas guardadas, tudo fora de lugar, sem ordem alguma. Uma perfeita confusão.
Com medo, sem saber o que fazer, por onde começar, me desesperei. Quis sair correndo, viver tudo o que não vivi lá fora. 
Mas então, veio o segundo convite: "Vamos, entre comigo. Há muito o que fazer, e preciso da sua presença pra deixar tudo como deveria estar. Há muito trabalho por aqui, não temos tempo a perder."
Um suspiro longo e profundo.
Meus olhos travados, mais que minhas pernas. É agora ou nunca.
Fixei-me em Teus olhos, doce olhar. Impossível resistir. Me estendendo a mão, me ajudou a descer.
O primeiro passo é deixar a luz entrar. E com a volta do sol, posso ver, os primeiros feixes de luz, iluminando tudo. E mesmo quando a noite caí, a tua presença basta. A tua presença ilumina. Não há mais o que temer.
Sei que vai doer. Mas sei que não estou sozinha. Quando eu quiser sair e, provavelmente vou, você vai estar lá, trabalhando, mesmo que eu não perceba. Pois você escolheu morar ali. Onde não há esperança, não há vida. Onde há apenas lembranças, lagrimas, segredos, medos... Onde não há sentido morar, foi ali que você escolher viver.
E você sabe que eu vou voltar. Sabe que se fui, é porque sou fraca, medrosa, falha, não sei lidar com os problemas. E sabe que cedo ou tarde vou te procurar e é aí que estará, me esperando. E sorrindo, me olhará com amor, dizendo: "Ah... Aí está você. Estava com saudade. Vamos lá? O que você acha disso daqui? O que você acha de mudar essa prateleira de lugar? Me ajuda aqui, não aguento carregar sozinho."
Bobo... Sei que você consegue, assim como conseguiria carregar a cruz sozinho, mas quis ser humano, e foi pleno Deus escolhendo viver assim. E mais uma vez, faz comigo a mesma dinâmica. Sei do que é capaz, mas quer que eu participe com você.
Sorrindo, arregaço as mangas e te ajudo a carregar a cruz... A minha cruz.

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