quinta-feira, 10 de maio de 2012

Dom Eduardo, Doutor Honoris Causa na Uniso


Discurso de agradecimento pelo título de Doutor Honoris Causa conferido pela Universidade de Sorocaba

Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues
Arcebispo Presidente da Fundação Dom Aguirre, mantenedora da Universidade de Sorocaba (Uniso).

Agradeço, comovido, o título de Doutor Honoris Causa a mim, nesta solenidade, conferido pela Uniso, cuja história enaltece a todos que, desde suas origens, doam suas vidas para torná-la a grandeza maior de Sorocaba no esforço de pesquisar e de transmitir o saber, sempre objetivando o bem da sociedade sorocabana. Este título, eu o recebo com a mais profunda humildade, consciente de que, antes de mim, o empenho dos Presidentes da FDA que me precederam, coadjuvados por seus colaboradores, méritos maiores têm na história da FDA e de suas mantidas. Rendo homenagem aos que me precederam na Presidência da FDA, mais proximamente ao saudoso Dom José Lambert, bem como aos seus colaboradores imediatos corresponsáveis na edificação deste campus e por tantas outras iniciativas tomadas pela Fundação no sentido de promover a educação em Sorocaba. Todos foram importantes, também aqueles que, pelas mais diversas razões, não puderam mais  prestar seu serviço nos quadros da Fundação e de suas mantidas, a UNISO e o Colégio Dom Aguirre. Se algum mérito tenho no exercício da presidência do Conselho Superior da Fundação Dom Aguirre devo creditá-lo à sabedoria de nossos conselheiros que me ajudaram a compreender que somente o diálogo e a cooperação de todos os comprometidos com os objetivos da Fundação e de suas mantidas seria o caminho para a superação das enormes dificuldades de gestão que se desenhavam no horizonte de nosso caminho, bem como para o desenvolvimento e aperfeiçoamento dos meios necessários para a realização de seus projetos educacionais. Os avanços verificados nos últimos anos são fruto do empenho daqueles que estão solidários conosco na busca de respostas para os enormes desafios do recente surto de desenvolvimento desta região do Estado de São Paulo. Agradeço, pois, de coração, a dedicação dos membros do Conselho Superior da Fundação, o incansável zelo de nosso Secretário Executivo, Prof. Rogério Profeta e o competente trabalho de nossa  Administradora, Helenice com todo o grupo de funcionários que com ela colaboram bem como a atuante presença do Prof. Aldo Vannucchi, que viveu, desde suas origens, intensamente a história da Uniso, formulando inclusive a mística que deve presidir suas atividades e que, agora, como Secretário Geral, não só cumpre as tarefas prescritas no Estatuto da Fundação para o cargo, mas presta, a partir de sua longa e fecunda experiência de educador, uma espontânea e inteligente assessoria  nas tomadas de decisões necessárias. Um agradecimento muito especial ao reitor, O Prof. Dr. Fernando Del Fiol e ao Conselho Universitário pela sua atuação tanto na condução dos processos de ensino, pesquisa e extensão bem como pela colaboração inestimável no equacionamento das questões administrativas, objeto permanente de nossos cuidados. E na pessoa do Reitor e dos Conselheiros agradeço o empenho de todos os professores bem como dos funcionários que, com esmerada solicitude, são, na verdade, os construtores dessa grandeza que é a Uniso e o Colégio Dom Aguirre.

Reflexão sobre a Inspiração cristã na vida da UNISO

Nesta oportunidade, como presidente da FDA, pensando representar o sentir de seu Conselho Superior, quero oferecer-lhes uma breve reflexão sobre o que vem expresso nos estatutos da Fundação Dom Aguirre(art. 6, n. 1) e da Uniso (art. 4, parágrafo 1).

O estatuto da FDA fala de uma perspectiva cristã e o estatuto da Uniso de buscar os objetivos à luz dos princípios cristãos. Em ambos os casos é explicitado que em  tudo deve ser salvaguardada a dignidade da pessoa humana, sendo que, no estatuto da Uniso, são elencados os valores a serem promovidos: pluralismo, solidariedade, vivência comunitária, democracia e liberdade.

O Diálogo Fé- Razão

Vivemos, no ocidente cristão ou pós-cristão -, um processo de radical secularização da cultura, sendo que em certos ambientes, por temor de um controle religioso da sociedade pelas grandes Instituições Religiosas - a(s) Igreja(s), por exemplo -, procura-se excluir qualquer referência à religião, considerando-se, frequentemente, esta como inimiga da racionalidade que deve presidir a vida da sociedade. No afã de afirmar a laicidade do Estado - uma conquista da modernidade alguns acabam por querer banir do espaço público as manifestações religiosas e excluir do mundo acadêmico qualquer esforço de compreensão positiva do fenômeno religioso tal como é vivido na própria tradição cultural.

Na raiz da questão está presente a dificuldade em harmonizar religião (fé) e razão. A modernidade, sobretudo a partir do séc. XIX foi extremamente crítica em relação à dimensão religiosa do ser humano. Basta lembrar, ainda que somente de passagem, a profecia de Nietsche de que Deus havia morrido e que os homens poderiam de agora em diante viver a vida na sua plena espontaneidade; e ainda a crítica marxista da religião interpretada esta como suprema alienação, ópio do povo, bem como a crítica de Freud que classificava a religião como ilusão do desejo. Mais recentemente, em nome da ciência alguns cientistas Dawkins, por exemplo -,  não só se declaram ateus, mas pregam o fim da religião como necessário para o progresso da humanidade. Como cristão gostaria de ressaltar que, atrás desta crítica da religião, esconde-se o propósito de procurar, desde as origens do iluminismo, a libertação do ser humano e a intenção de construir uma sociedade mais humana. Com isto quero dizer que a crítica da religião, acolhida com discernimento por aqueles que têm fé, contribui poderosamente para sua purificação. O diálogo entre crentes e não crentes é de fundamental importância para construção da paz social. Nesse sentido o diálogo havido entre o então Cardeal Ratzinger  e Jurgen Habermas em 19 de janeiro de 2004 se tornou emblemático para as relações entre crentes e não-crentes.

O tema do encontro girou em torno das bases morais pré-políticas de um Estado liberal, ou seja, a busca de um fundamento comum para a sociedade global: religiosa e não religiosa, ocidental e não ocidental voltado para a dignidade humana.

A globalização, em franco processo de aceleração, coloca em contato as mais diversas culturas, e, através das redes sociais, vai gestando progressivamente a consciência de sermos uma única humanidade a navegar em um mesmo barco no imenso espaço sideral do universo. A humanidade a sociedade global necessita de um fundamento comum que possa transformar em respeito e fraternidade universal a convivência entre os povos.

Habermas pensa não ser necessário um fundamento pré-político, filosófico ou religioso, para o bom funcionamento da democracia. O consenso dos cidadãos sobre os valores que devem presidir a vida em sociedade, consubstanciados em Constituição, seria suficiente. Neste diálogo, entretanto, Habermas reconhece na tradição religiosa um papel importante de inspiração pela qual os crentes podem assumir com a mística religiosa o consenso democrático. Para muitos foi uma surpresa ouvir da boca do filósofo, que à maneira de Max Weber se declara a-músico em matéria de religião, o pedido urgente dirigido à sociedade secular para chegar a um novo entendimento a respeito das convicções religiosas, já que estas não podem ser encaradas simplesmente como resíduos de um passado terminado, constituindo-se antes num verdadeiro desafio cognitivo para a filosofia.

Por fim, Habermas propõe que o espírito religioso e o espírito secular aprendam juntos as regras da convivência universal, oferecendo-se um ao outro como remédios de suas respectivas patologias.

O Cardeal Ratzinger defende o ponto de vista de que há de existir uma fundamentação ética que antecede a formulação do direito positivo. Assim: o princípio da maioria continua a deixar em aberto a pergunta acerca dos princípios éticos do direito, portanto, daquilo que, em si, sempre permanece injusto ou também, de maneira inversa, aquilo que, de acordo com sua natureza, é um direito imutável, que antecede qualquer decisão pela maioria e que deve ser respeitado por ela. Os tempos modernos formularam um acervo de tais elementos normativos em diversas declarações de direitos humanos e os retiraram do jogo das maiorias. Agora, com a consciência presente, podemos nos dar por satisfeitos com a evidência interna desses valores. Há em vigor, portanto, valores em si, os quais decorrem da essência do ser humano e por isso são intocáveis por todos os portadores dessa essência. Não posso me estender na consideração do conteúdo todo da fala do então Cardeal Ratzinger, mas ressalto que, em sua conclusão, o Cardeal concorda fundamentalmente com a posição de Habermas quando afirma com o subtítulo Duplos Limites:

 1) Nós vimos que há patologias na religião que são extremamente perigosas e que é necessário encará-las à luz da razão como um, por assim dizer, órgão de controle, a partir do qual a religião sempre deve se deixar purificar e organizar novamente, o que foi, aliás, também a noção dos padres da Igreja. Em nossa reflexão, porém, mostrou-se que também há patologias da razão (do que, hoje em dia, a humanidade em geral não tem exatamente consciência), uma hybris da razão, a qual não é menos perigosa, ao contrário, devido à sua potencial eficiência, muito mais ameaçadora: a bomba atômica, o homem como produto. Por isso, por outro lado, a razão também deve ser lembrada em seus limites e aprender a disposição de ouvir as grandes tradições religiosas da humanidade. Quando ela se emancipa completamente e coloca de lado essa disposição de ouvir, essa capacidade de correlação, ela se torna destruidora. Eu falaria de uma necessária correlação entre razão e fé, entre razão e religião, as quais são convocadas para uma purificação e salvação recíproca, que se carecem mutuamente e que precisam reconhecer isso.

2) Essa regra fundamental deve ser então concretizada, no contexto intercultural de nossa atualidade, de forma prática. Sem dúvida, são a fé cristã e o racionalismo secular ocidental as duas partes principais dessa correlação. Pode e deve-se dizer isso sem falso eurocentrismo. Ambas as partes determinam a situação mundial em uma medida tal como nenhuma outra dentre as forças culturais. Mas isso certamente não significa que dever-se-ia colocar de lado as outras culturas como uma espécie de "quantité négligeable". Isso seria com certeza uma hybris ocidental, pela qual nós pagaríamos caro e, em parte, já pagamos. É importante para esses dois grandes componentes da cultura ocidental deixarem-se comprometer com um ouvir, com uma verdadeira correlação com essas culturas. É importante levá-las para dentro na tentativa de uma correlação polifônica, na qual elas próprias se abram para uma complementaridade essencial entre razão e fé, de modo que um processo universal de purificação possa se desenvolver, no qual as normas e os valores essenciais de alguma forma conhecidos ou pressentidos por todos os homens possam adquirir uma nova intensidade luminosa, de sorte que novamente possa vigorar na humanidade aquilo que segura o mundo.

O Átrio dos Gentios

O Cardeal Ratzinger, uma vez eleito papa, deu continuidade a seu pensamento oficializando na Igreja o Diálogo com ateus e indiferentes criando, através do Conselho Pontifício para a Cultura o Átrio dos Gentios. Tal iniciativa foi inaugurada em Paris nos dias 24 e 25 de março de 2011. O Átrio dos Gentios era, no templo de Jerusalém, o espaço externo, onde os pagãos, atraídos pelo Judaísmo, podiam se fazer presentes, sendo-lhes vetada a entrada no interior do Santuário, que seria punida com a morte. Era, entretanto, uma forma de acolher os interessados muitos eram prosélitos na Religião judaica. O Apóstolo Paulo mostra que Cristo veio para derrubar o muro de separação que dividia hebreus e gentios, para criar em si mesmo, dos dois, um só homem novo, fazendo a paz, reconciliando ambos com Deus em um só corpo (Ef 2,14-16). O cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, comenta:  O símbolo de apartheid e de separação sacral que era o muro do Átrio dos gentios é, pois, cancelado por Cristo que deseja eliminar a barreira para um encontro na harmonia entre os dois povos. É com esta ulterior explicação paulina que faz sentido a aplicação metafórica do Átrio sugerida por Bento XVI. Crentes e não crentes estão em territórios diferentes, mas não devem se enclausurar em um isolacionismo, sacral ou laico, ignorando-se, ou pior, lançando zombarias ou acusações, como desejariam os fundamentalistas de ambos os lados.

Algumas questões de fundo

As Universidades, nascidas na Idade Média, no seio da Igreja, sofreram profunda transformação com o advento das ciências na modernidade, passando a se ocupar predominantemente em desenvolver o conhecimento voltado para o domínio da natureza, com o objetivo de criar instrumentos e meios de melhorar as condições de vida da humanidade. São inegáveis os avanços tecnológicos que decorreram das descobertas científicas, em todas as áreas do conhecimento da natureza e do homem, acelerando a produção, sobretudo de bens de consumo. Nesse contexto, com raras exceções, as dimensões fundamentais da experiência humana, objeto da reflexão, deixaram de ocupar o espaço que tinham, e que merecem ainda ter, no seio das Universidades. Os apelos do mercado - a produção de bens materiais - se tornaram determinantes no que diz respeito às opções de ensino e pesquisa. É missão da Universidade preparar para o mercado e alavancar o desenvolvimento econômico formando profissionais competentes, uma vez que o bem estar das pessoas depende desse desenvolvimento. Aqui cabe, entretanto, algumas perguntas: que valores devem presidir a ordem econômica? Como formar profissionais que não sejam apenas peças eficientes da engrenagem tecnológica a serviço da produção?  Como oferecer a todos universitários, além da preparação científica e técnica, uma visão do ser humano e da sociedade que os ajude a situar sua atividade no contexto maior da construção da justiça e da paz social? Esta é a proposta da UNISO: No exercício de seus objetivos institucionais, a Uniso, à luz dos princípios cristãos, tem compromisso com a ética e com os valores humanísticos primordiais, tais como: o pluralismo ideológico, a vivência comunitária, a justiça, a solidariedade, a democracia e a liberdade, sendo proscrita qualquer forma de discriminação. Temos notícia de que as matrículas para os cursos que respondem pela formação de educadores para o ensino fundamental e médio filosofia, ciências, letras e pedagogia estão diminuindo sensivelmente. Por outro lado, é necessário ressaltar a importância da reflexão sobre as questões fundamentais relativas aos valores que devem presidir a vida em sociedade, abrindo um espaço maior, no meio acadêmico, para o estudo e a compreensão das raízes cristãs de nossa história e da contribuição do cristianismo na formação de nossa cultura.

A contribuição da fé cristã

A propósito desta contribuição, peço ainda um pouco mais da atenção de todos que nos honram com sua presença para uma breve reflexão sobre três dimensões fundamentais da existência humana cuja consciência é fruto da presença da fé cristã na história, sobretudo do ocidente. Trata-se dos conceitos de pessoa, sociedade e história, realidades entrelaçadas em profunda unidade. O Cristianismo introduziu na cultura a noção da dignidade inalienável de cada pessoa, conseqüentemente a idéia de liberdade e de igualdade; aprofundou a noção da dimensão social do ser humano - já presente em Aristóteles afirmando a fraternidade universal e colocando a comunidade como o lugar da realização da pessoa; e introduziu a noção de história como processo, como caminho para o futuro. Duas verdades fundamentais da fé cristã estão na origem destas noções: o mistério da Trindade e o Mistério da Encarnação do Verbo que se consuma na morte e cujo significado se manifesta em sua ressurreição gloriosa.

Os conceitos de pessoa e de comunidade.

No século passado dois sistemas sociais disputaram a hegemonia: o capitalismo e o comunismo. O primeiro se caracterizava pela hipertrofia do indivíduo; o segundo pela hipertrofia do coletivo. A luta era, pois, entre o individualismo e o coletivismo. No primeiro prevalecem os interesses individuais. A competição entre os indivíduos, - ou entre grupos associados de indivíduos - produz o progresso, e se regula a si mesma. Na verdade, o mais forte acaba por submeter o mais fraco. No segundo prevalece o interesse da espécie, do todo, do coletivo. Os interesses individuais devem se submeter às necessidades da coletividade. No marxismo a essência do ser humano está no todo e só pode se concretizar em relações sociais que abolirem o particular em função de um universal concreto. A doutrina marxista pensava que a consciência individual era produto da estrutura e que, por isso, abolida a propriedade privada e organizada a sociedade em estruturas de comunhão coletiva, os indivíduos humanos passariam a pensar e a viver comunitariamente. As estruturas impostas, entretanto, não produziram o resultado esperado. Hoje prevalece uma globalização excludente e mais que nunca a humanidade necessita de um projeto global de solidariedade. O ideal de uma plena comunhão de bens tem origem no evangelho (At 2,44). Parece que a distância entre o indivíduo e a sociedade é insuperável. Ainda prevalece a ideia de que a vida em sociedade só é possível mediante o equilíbrio de interesses egoístas.  Qual a contribuição do cristianismo para essa questão? A contribuição está no próprio conceito de pessoa e de comunidade. O indivíduo humano é pessoa e a espécie humana deve se realizar como comunhão de pessoas. A pessoa se caracteriza pela liberdade e pelo apelo profundo à comunhão. Na abertura ao outro está o segredo da realização da pessoa. A liberdade é liberdade para e não simplesmente liberdade de. Só há comunhão onde há liberdade e só há realização plena da pessoa na comunhão. Não adiantam estruturas de comunhão sem pessoas comprometidas com o bem comum. São Paulo já o havia percebido quando afirmou que a lei não salva (Gal.3,21). A lei pode apontar o caminho. Fazer o caminho, entretanto, é obra do Espírito e decisão da pessoa. Decidir-se pelo outro, assumir um projeto comunitário e gastar a própria vida nessa direção, é o caminho de realização do ser humano. O significado pleno da afirmação do Gênesis de que a humanidade foi criada à imagem e semelhança de Deus só veio plenamente à luz com a revelação da Trindade. O único Deus é Trino, comunhão de pessoas. Uma pessoa não é a negação da outra. Cada pessoa é plenamente Deus na comunhão de amor com a outra: Eu e o Pai somos UM, no Espírito de amor. Ser pessoa é ser capaz de relação, de entrelaçar destinos, de transcender interesses imediatos para estar em comunhão com o todo. Esta compreensão, e só ela, pode fundamentar a justiça na vida da sociedade. Nem a perspectiva de Rousseau de que a sociedade perverte o ser humano, nem a de Hobbes de que o Homem é lobo para o homem constituem a verdade sobre o ser humano. Este ponto de partida condena a humanidade á infelicidade ou à guerra permanente. O cristianismo funda uma compreensão do ser humano muito diversa, que permite pensar o futuro com esperança. Por isso a antropologia, nascida da fé cristã, é digna de consideração também por aqueles que não partilham conosco a mesma convicção.

A noção de história como processo, caminho para o futuro.

À compreensão de Deus como Uno e Trino, comunhão de três em um único ser, deve-se acrescentar como inseparável a convicção de que Deus, na pessoa do Verbo, se fez um de nós e de tal modo se envolveu com nossa história que tomou para si todos os nossos sofrimentos e nossos descaminhos, morrendo na cruz, destino dos desgraçados. Aprendemos desta verdade a solidariedade com os outros, quaisquer que sejam, sobretudo com os que mais sofrem. A fé na Ressurreição ilumina a história e nos garante que não existe situação humana que não possa ser morada da esperança. Esta fé, longe de nos alienar, sustenta-nos como força que nos mantém atuantes no coração da história, certos de que não é vão nosso esforço em construir o mundo. A história humana tem sentido e vale a pena o empenho no trabalho de superar os males que afligem a humanidade, ferindo a dignidade do ser humano e produzindo a injustiça na convivência social.

A esperança move todo e qualquer ser humano em sua ação. A história nasce permanentemente da esperança. Que bom seria se a sociedade como um todo transformasse em projeto comum, através de diálogo permanente, a esperança que nos move a todos. Não é possível ser feliz sozinho. Ou construímos um mundo para todos ou estaremos sempre de novo afligidos pelo medo e pela insegurança. A esperança verdadeira gera comunhão, solidariedade. A fé cristã, retamente compreendida, transfigura a esperança humana, oferecendo-lhe a garantia de que não é inútil o empenho em construir um mundo onde reine a verdade e a justiça. Em sua encíclica Spe Salvi, Bento XVI ressalta a importância da verdade cristã sobre a ressurreição e sobre o Juízo Universal. Assim reflete o papa, referindo-se ao filósofo Adorno: mas ele Adorno - sempre sublinhou esta dialética « negativa », afirmando que a justiça, uma verdadeira justiça, requereria um mundo « onde não só fosse anulado o sofrimento presente, mas também revogado o que passou irrevogavelmente. » Isto, porém, significaria expresso em símbolos positivos e, portanto, para ele inadequados que não pode haver justiça sem ressurreição dos mortos e, concretamente, sem sua ressurreição corporal. Todavia tal perspectiva comportaria « a ressurreição da carne, um dado que para o idealismo, para o reino do espírito absoluto, é totalmente estranho »(n. 42). A história humana só não será uma tragédia em andamento se o objeto da esperança humana um dia se concretizar para todos, também para os que vieram antes de nós.

A fé em Deus, Uno e Trino, a convicção de que Ele veio até nós na pessoa do Filho, participou de nossa história, descendo até os infernos,e que ressuscitou dos mortos, esta fé não pode ser imposta, mas, para os que crêem, ela deve significar um profundo comprometimento com a construção da justiça e da paz na vida da sociedade.

A UNISO, uma Universidade comunitária a serviço da sociedade

A UNISO é uma Universidade Comunitária a serviço da sociedade. Prof. Aldo em seu livro UNISO, Uma Universidade Comunitária nos ensina: ... a missão atinge um nível ainda mais alto, chegando a consubstanciar mais que uma ideologia ou uma filosofia de trabalho, um autêntico apostolado, uma verdadeira mística de traços quase evangélicos, embora sob traços seculares (Pág. 34).  Ainda: os professores não são meros agentes acadêmicos trabalhando para a comunidade, pois aprenderam a trabalhar com a comunidade e, mais ainda, como comunidade (pág.35). Três pontos são essenciais: a produção de conhecimentos significativos para a sociedade, a transformação de seus alunos em cidadãos conscientes e profissionais íntegros e a intervenção positiva na realidade social (pág. 35). E sobre a Ética: ... as universidades comunitárias estão, mais do que nunca, necessitando refletir sobre as exigências éticas do seu ser e do seu agir. Hoje, o país cobra da universidade, com razão, o máximo de credibilidade e de responsabilidade em todos os seus atos (pág. 71)

A inspiração cristã, pois, que anima a vida e o funcionamento de nossa Universidade, deve torná-la uma verdadeira comunidade onde ensino, pesquisa e extensão se desenvolvam em clima de mútua estima e de eficiente colaboração, objetivando formar profissionais competentes e cidadãos conscientes, ética e politicamente preparados para participar da construção de uma sociedade mais justa e mais fraterna.

Pensamento final

Encerro minha reflexão comentando a seguinte afirmação de Bento XVI: uma sociedade em que Deus está ausente não encontra consenso necessário sobre os valores morais e a força para viver segundo esses valores, mesmo contra os próprios interesses. Nós, cristãos, reconhecemos por esta afirmação, com humildade, que sozinhos, sem o divino auxílio, não podemos conhecer a verdade plena e não temos também a força suficiente para vivê-la. Esta convicção nos obriga a testemunhar a existência de Deus, não de um deus qualquer, mas do Deus de Jesus Cristo, que nele assume nossa história para resgatar-nos e oferece-nos o caminho da vida. Este anúncio nós o devemos fazer nas estruturas do mundo empenhados na busca da justiça trabalhando pelo bem comum, ou seja, para criar o conjunto das condições sociais que permitem e favorecem nos homens o desenvolvimento integral da personalidade.

Que a Inspiração cristã continue a ser a grande luz a presidir a vida de nossa Universidade, a Universidade de Sorocaba! Seja ela traduzida em pedagogia que valorize a dignidade da pessoa, a forma comunitária de viver e de trabalhar bem como a formação para o serviço da comunidade.

E que Deus, Pai, Filho e Espírito Santo nos abençoe a todos. Amém.

Sorocaba, 05 de maio de 2012.

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