sexta-feira, 20 de abril de 2012

A presença do ressuscitado na História

- por Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues
Arcebispo de Sorocaba.


Gosto sempre de recordar a bela passagem - umas das mais lindas – do evangelho de São Lucas onde ele nos narra o encontro dos desesperançados discípulos de Emaús com Jesus ressuscitado, disfarçado de peregrino. Quando Jesus lhes perguntou: “o que estais a conversar enquanto caminham? Eles pararam, e tiveram a coragem de levantar seus olhos entristecidos para olhar aquele que, pelo jeito como a eles se dirigiu, parecia advinhar-lhes o sofrimento. E começaram, espantados de que o peregrino que se aproximara tudo ignorasse, a contar-lhe o que acontecera a Jesus de Nazaré, um poderoso profeta em obras e palavras, que incendiara seus corações de esperança, e que, entretanto, fora rejeitado pelos chefes que o condenaram à morte. Como conservar o brilho do rosto e a luminosidade do olhar se lhes arrancaram de dentro a luz da esperança que um dia se acendera no encontro com Ele? “Nós esperávamos que fosse ele quem redimiria Israel; mas, com tudo isso, faz três dias que essas coisas aconteceram”(Lc 24,21). Nem mesmo o relato das mulheres que foram ao túmulo de madrugada, afirmando que viram anjos que anunciavam estar Ele vivo, mais o testemunho de irmãos que lá estiveram, lhes abriram os olhos. Foi necessário que o forasteiro, que com eles caminhava, lhes explicasse as Escrituras para garantir-lhes que esse era precisamente o caminho e o destino do Messias que, depois, haveria de ressuscitar, para entrar definitivamente na glória do Pai.. Aquela conversa lhes interessou profundamente a ponto de insistirem com o misterioso companheiro que ficasse com eles porque já escurecia. “Entrou então para ficar com eles”(Lc 24,29). Foi à mesa que o reconheceram, quando lhes estendeu as mãos oferecendo o pão abençoado. As mãos dos dois discípulos foram ao encontro das mãos do Senhor e eles, que tinham os olhos fitos em seu rosto, no exato momento em que acolhiam o pedaço de pão, maravilhados, viram-no desaparecer de diante de seus olhos. O pedaço de pão, que lhes ficara nas mãos, lhes garantia que Ele estava vivo. “E disseram um ao outro: não ardia o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras?” E voltaram imediatamente a Jerusalém onde encontraram os onze já reunidos, a quem comunicaram a maravilhosa experiência que acabavam de viver.

Esta experiência, a experiência do ressuscitado, haveria de causar uma verdadeira revolução no modo dos discípulos pensarem a realização do reino prometido. Mas levaria ainda algum tempo até que eles entendessem tudo. Jesus ressuscitou, ele está vivo, mas quando e como vai acontecer a salvação de Israel? E perguntam: “Senhor, será agora que haveis de restaurar a realeza de Israel?” (At 1,6). Pensavam ainda com os estreitos critérios de um messianismo temporal. Eles não haviam ainda entendido que o reino era de outra ordem e que já começara para toda a humanidade, exatamente porque Ele, Jesus, ressuscitara. A glorificação de sua humanidade era o reino realizado nele em benefício de toda a humanidade. O Reino já está presente precisamente porque o Ressuscitado está presente e se comunica com todos aqueles que o acolhem na fé. Sua plenitude acontece para além da história, mas ele já está atuando aqui e agora, no coração e na vida de todos aqueles que aceitam fazer o mesmo caminho que Jesus fez. O mundo se torna melhor em razão dessa presença. Ele está presente nos hospitais, nas prisões, nos campos de concentração, nos templos, nos lares, nas praças, nas escolas, em toda a parte, está presente lá onde se vive o amor e se renova a esperança. Aqueles que assim crêem não desanimam nunca, pois experimentam a presença do Senhor e sabem que essa presença é o reino e que nada, absolutamente nada, pode banir da história a luz dessa presença. Quando fico a meditar essas coisas sempre me vem à mente a figura de Pe. José Kentenich. Enviado ao campo de concentração nazista - Dachau, Pe. José Kentenich viveu esse tempo na alegria do reino, animando os irmãos, ajudando-os a fazerem a experiência do reino por entre os sofrimentos atrozes da prisão nazista. É assim que o Reino de Deus não se confunde com nenhuma situação histórica e com nenhuma utopia humana. Porque é de ordem transcendente, o reino pode estar presente em cada momento da história, em quaisquer situações, como fonte de verdadeira alegria para todos que o acolhem e como fermento de justiça e força de amor para toda a humanidade. Esta experiência se dá pela atuação do Espírito Santo que dá testemunho de Cristo dentro de nós, dando-nos a convicção de que Ele vive, é o Senhor e está no meio de nós, dirige-nos sua palavra e se dá a nós na Fração do pão. Nossos governantes poderiam fazer muito mais pelo nosso país se deixassem se guiar pelo Espírito do Senhor. Rezemos por isso.

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