quinta-feira, 12 de abril de 2012

A PÁSCOA

A Páscoa

- por Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues,
publicado nos Jornais de Sorocaba!
Era a festa da libertação dos hebreus da opressão do Egito. Passaram da escravidão para a liberdade, onde deveriam viver como Povo de Deus, na fidelidade à Aliança, no cumprimento dos mandamentos. Lá, na nova terra, haveria de reinar a Paz, fruto da justiça e da fraternidade. Na nova terra, porém, reproduziram-se os esquemas aprendidos no Egito, esquecidos os hebreus das lições de Deus na travessia do deserto. Os profetas anunciaram então uma nova libertação, uma Nova Aliança, um novo Messias, quando, enfim, pela força do Espírito de Deus, os seres humanos haveriam de mudar por dentro. Era preciso arrancar-lhes de dentro a sede de domínio, o culto da prepotência para lhes plantar no coração o gosto de servir e a alegria de ser irmãos. Para isso veio um Rei diferente, um Messias - Jesus - que, sendo Deus, assumiu a condição de servo, entrando em comunhão com o ser humano oprimido e dominado por dentro pelo mal para dar-lhe a vida e torná-lo livre. O Pai ressuscitou Jesus. Ele é Senhor. Sua força, pelo Espírito, atua no mundo, renovando-o desde as raízes profundas do ser humano. O coração de nossa fé é a páscoa do Senhor, mistério de comunhão, de solidariedade e de vida. Em Cristo Deus entrou em comunhão conosco e solidarizou-se com a nossa condição, assumindo todas as dimensões de nossa pobre existência até o extremo de deixar-se tomar pelas nossas dores e pelos nossos pecados. O pecado que nos desfigura por dentro, mais as dores que o pecado gera na história, caíram sobre o corpo e sobre a alma de Jesus. Misturado ao pó de nossa miséria - ao morrer no abandono, sobre a cruz dos desesperados -, Jesus, em um ato supremo de liberdade, entregou-se ao Pai arrastando consigo a humanidade inteira. Sua ressurreição foi a plena manifestação de que a cruz foi de fato a grande vitória sobre o pecado e sobre a morte. Tendo Ele assumido nossas dores – todas – e nossos pecados, abriu-nos por isso mesmo os caminhos para a Vida. De agora em diante toda experiência humana, por mais dolorosa que seja, pode ser vivida como caminho, pois o Senhor a assumiu na sua paixão e morte e a transfigurou pela sua ressurreição gloriosa. No coração de toda experiência humana mora a semente da vida. O grão de trigo caiu na terra de nossa existência, aninhou-se no coração de nossa dor e, ao morrer, germinou como plenitude de vida. A páscoa de Jesus é a nossa páscoa. Batizados no seu mistério estamos destinados à Plenitude da vida. Basta fazer seu caminho: dar a vida, ser grão de trigo que aceita cair na terra e morrer no amor. Podemos ser diferentes, melhores. Mas não bastam as mudanças de superfície. É preciso mudar a partir de dentro, do próprio coração. Todas as mudanças se revelarão inúteis se a páscoa de Jesus não se cumprir em nossas vidas. E como pode se dar em nossa vida a páscoa de Jesus? É preciso fazer seu caminho. Como discípulos devemos seguir seus passos. O tempo da história é o tempo do grão de trigo cair na terra e morrer. Do contrário ele fica só. Quando alguns gregos quiseram ver Jesus, Filipe e André os levaram até Jesus. Um grego, mesmo em processo de adesão ao judaísmo, gostaria de ouvir uma bela preleção, cheia de sabedoria filosófica. Jesus, entretanto, disse: “Chegou a hora em que o filho do homem vai ser glorificado. Em verdade, em verdade, vos digo: se grão de trigo que cai na terra, não morre, ele fica só. Mas, se morre, produz muito fruto. Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem não faz conta de sua vida neste mundo, há de guardá-la para a vida eterna”(Jo 12,23-25). Esse é o caminho que conduz à Terra Prometida. Oferecer a vida como Jesus o fez. O esquema do mundo é o de salvar a própria vida, a própria pele. O equilíbrio da vida em sociedade se dá pelo equilíbrio de forças. As nações não se engolem umas às outras porque estão igualmente armadas. As mais fracas sofrem opressão das mais poderosas. Assim também no interior das nações. Os grupos e as classes se equilibram na base da força. A vida em sociedade é uma luta que, por ser perigosa, acaba por tornar mais vantajosa a negociação. Há quem já definiu a política coma a luta pelo poder. O evangelho aponta noutra direção. Outro mundo é possível. Os discípulos de Jesus são chamados a participar de sua construção, pondo em prática o ensinamento de Jesus: “sabeis que os que são considerados chefes das nações as dominam e os seus grandes fazem sentir seu poder. Entre vós não deve ser assim. Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro dentre vós seja o escravo de todos. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos”(Mc 10,42-45). Ingenuidade? Não. Missão. Feliz Páscoa, meu irmão e minha irmã! Não se isole, entre em comunhão e viva na solidariedade.

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